Uma das tendências mais fortes no cuidado médico é a transição de procedimentos médicos invasivos, tais como cirurgias a céu aberto, para intervenções minimamente invasivas que resultam geralmente em procedimentos mais rápidos, com menos trauma para o paciente e melhores resultados. O surgimento de novas intervenções minimamente invasivas também permite o tratamento de condições para as quais ainda não há terapia adequada disponível. O diagnóstico por imagem e tecnologias relacionadas são essenciais para a condução de procedimentos minimamente invasivos, oferecendo visualização da área definida para o tratamento, ajudando no posicionamento apropriado e na operação dos instrumentos e monitorando o progresso da intervenção. Para desempenhar com excelência tais intervenções, o direcionamento por imagens, novos instrumentos e soluções terapêuticas avançadas fazem-se necessários. A Philips Research e a GlyGenix Therapeutics pesquisarão a viabilidade do uso de tecnologias de ultrassom para guiar, monitorar e controlar a distribuição de DNA terapêutico para o fígado em estudos pré–clínicos para o tratamento da Doença do Armazenamento de Glicogênio Tipo 1a (GSD-1a). Para a Philips, o envolvimento nesse trabalho conjunto de pesquisa faz parte de uma série de parcerias em que nossa tecnologia avançada de ultrassom será utilizada. Além do uso de microbolhas co-injetadas para induzir a sonoporação, também estamos explorando a possibilidade de utilizar ultrassom direcionado para a liberação de medicamentos a partir de microbolhas e nanopartículas para obter uma distribuição direcionada. Além disso, estudamos a possibilidade de utilizar essa técnica para terapia de ablação térmica. Essas iniciativas incluem a liderança da Philips no projeto SonoDrugs da União Européia (UE). Doença do Armazenamento de Glicogênio Tipo 1a A Doença do Armazenamento de Glicogênio do Tipo 1a (GSD-1a) é causada por uma deficiência genética que impede o corpo de produzir uma enzima chamada glicose-6-fosfatase (G6Pase). Essa enzima exerce um papel crítico na conversão de glicogênio em glicose no fígado, a medida em que o corpo tenta manter um nível de açúcar no sangue adequado entre as refeições. A ausência da enzima pode, assim, levar a períodos potencialmente fatais de hipoglicemia aguda (níveis de açúcar severamente reduzidos no sangue). Como o gene deficiente apenas prejudica a habilidade do corpo de converter glicogênio em glicose e não a sua habilidade de converter o excesso de glicose em glicogênio, a doença também resulta no armazenamento excessivo de glicogênio – daí o nome Doença do Armazenamento de Glicogênio. Isso geralmente resulta num crescimento do fígado, rim e intestino delgado, frequentemente acompanhado de uma gama de outras co-morbidades debilitantes. Atualmente, a GSD-1a é apenas monitorada, não curada. O gerenciamento da doença normalmente envolve dietas alimentares severas para garantir que o corpo tenha um suprimento de glicose contínuo, porém não excessivo, a partir do açúcar e do amido. Essa terapia normalmente envolve alimentação contínua por via nasogástrica ou nasoentérica, ou alimentação regular em intervalos de poucas horas, durante o dia e a noite. Como o tratamento deve começar o quanto antes, a doença é particularmente difícil para bebês e crianças. A GSD-1a é uma doença hereditária que afeta crianças nascidas de pais que são ambos portadores do gene com deficiência de G6Pase, tendo uma chance a cada 4 casos de sofrer da doença. Apesar de ser uma doença rara, que atualmente está presente em aproximadamente um a cada 100 mil ou 200 mil nascimentos nos EUA, sua natureza debilitante e impacto na qualidade de vida tornam imprescindível a busca de tratamentos mais eficientes. Terapia gênica curativaA terapia gênica oferece a possibilidade de cura para a GSD-1a. O procedimento consiste da introdução de um gene sem deficiência de G6Pase nas células do fígado na forma de um plasmido (molécula de DNA tipicamente circular capaz de replicação independente). Ao se restabelecer a produção da enzima glicose-6-fosfatase nos pacientes com GSD1a, as rígidas dietas alimentares e outras complicações associadas à doença são eliminadas, levando à cura. O desafio é encontrar um modo de transportar o gene G6Pase até as células do fígado. Um método que tem sido bastante explorado é o uso de vetores virais, como o adeno-associado (AAV), para transportar o gene para dentro das células. No entanto, terapias genéticas atuais que utilizam vetores virais para infectar as células podem apresentar o risco de uma resposta de imunidade antiviral ou inflamatória. Distribuição de genes mediada por ultrassomA distribuição de genes mediada por ultrassom oferece uma alternativa interessante que supera as dificuldades associadas aos vetores virais e também oferece a oportunidade para a realização de terapia direcionada não-invasiva em órgãos internos específicos. A técnica de ultrassom que será pesquisada pela Philips e pela GlyGEnix Therapeutics se apóia em um processo chamado de sonoporação. A sonoporação envolve o uso de microbolhas (esferas microscópicas cheias de gás e feitas de um material biocompatível, como o fosfolipídio) que são injetadas na corrente sanguínea junto com o gene G6Pase. Como essas microbolhas agem como um agente de contraste de ultra-som, sua chegada ao fígado (e por inferência, a chegada do G6Pase ao fígado) pode ser rastreada com um sistema de ultrassom. Quando chegam ao fígado, as microbolhas são então sujeitas a pulsações de ultrassom de alta energia direcionado, a uma frequência ressonante, o que faz com que elas se expandam e contraiam com rapidez. Se as microbolhas estão próximas a uma parede celular, sua deformação ou fragmentação física aumenta a porosidade da parede da célula ao gene G6Pase. O mecanismo exato envolvido ainda não é completamente compreendido, mas pode ser que as microbolhas oscilantes induzam a cavitação ou jatos de água microscópicos, enquanto a fragmentação das microbolhas pode criar fragmentos balísticos que perfuram as paredes da célula. Nessa aplicação, as microbolhas, assim, atuam tanto como um agente no diagnóstico por imagem, ajudando na intervenção guiada, quanto como um mecanismo para terapia não-invasiva. O mesmo sistema de ultrassom também será usado para o imageamento do fígado durante o procedimento. Parcerias de sucessoComo costuma acontecer com diversas doenças raras, o conhecimento clínico a respeito da GSD-1a está concentrado apenas em alguns centros médicos ao redor do mundo. A Philips e a GlyGenix Therapeutics têm o privilégio de conduzir estudos pré clínicos em colaboração com a Divisão de Genética Médica da Duke University (Durgam, Carolina do Norte, EUA), que atualmente gerencia o tratamento de diversos pacientes portadores de GSD-1a. Isso deve facilitar significativamente a passagem de estudos pré-clínico para exames clínicos, se os resultados da pesquisa conjunta forem promissores. |